Eu queria escrever sobre o mar azul. O mesmo que os olhinhos de Mili descobriram felizmente, mas não ao acaso, nesse fim de semana. Não sei se é culpa da sensibilidade mensal ou se é tudo sobre amar mesmo, mas meus neurotransmissores da felicidade e do prazer de estar viva parecem mais tocados. Aos 20 anos, algumas coisas parecem inalcançáveis demais, a pele em flor pede discernimento o tempo todo e, na maioria das vezes, a magia do certo não é tão clara. Mas aquela janela, aquele mar e aquele olhar me disseram muita coisa. E eu entendi tudo - ou ao menos tudo que aquele instante tinha pra me dizer. Desconfio que a magia esteja exatamente nisso, em ouvir cada segundo que passa por nós, mesmo quando nada é dito, mesmo quando os dias se prolongam, mesmo quando o sina demora a fechar pra que a gente atravesse a rua.
Dia desses, o fluxo de carros da Rua da Frente nos plantou naquele meio fio por longos minutos, até que alguém gentilmente cedeu a passagem. Ao atravessarmos, a música que vinha da pracinha logo calou todas as nossas possibilidades de reclamação, um show acabara de começar ali. Percebe a mágica? Também precisei de um toque, sorte ter alguém do meu lado que logo me atentou ao fato de que, se não estivéssemos passado pela espera demorada, nem teríamos passado a tempo de ouvir aquela canção tão bonita - que nos disse tanto só com seus poucos acordes. Parece que é tudo sobre saber olhar. A mágica. O tempo. O sinal. O mar. O mistério do agora que nos cerca.
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