quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Ouça-se

As ruas da cidade sussurram a necessidade de voltar e gritam o desconforto de estar novamente lá. Do outro lado da avenida, a varanda conta histórias que já fazem cena no enredo dos meus dias naquele lugar. Porque foi assim que descobri que saudade não é tempo. É quando prefiro ouvi-las repetidamente a suportar o silêncio do não sentir.
As horas que parecem dias me avisam que aquele carnaval passou, embora eu precise continuar essa dança e acompanhar a mudança casual dos ritmos que compõe a harmonia dos meus passos. Até encontrar o tom, me desvisto das fantasias sem cor e as transformo em rabiscos de canções-poesias inacabadas pela rima de meus versos mudos – que tanto têm a ouvir. E aprender a dizer.
E durante todo o repertório desse show em que danço, canto e toco – em frente –, sinto escorrer vontades e sonhos entre os dedos do tempo de cada canção. Tal como a sensação de ouvir novamente uma música esquecida e desconhecida pelo acaso das estações de rádio, o corpo reconhece a sintonia daquele toque repetitivamente singular em cada turnê e de imediato afago a quem se dispõe a senti-lo atento antes do último acorde.

No fim,
a cidade é mero palco
para cada ato
e canto
sobre a necessidade de sentir saudade – das histórias que a rua para não voltar me contou e dos próximos carnavais.

Os carinhos em sons que me acalentaram durante essa conversa foram "Amor, Agosto" dos The Mozões e "Sem Você" da Bruna Mendez.

Mas não deixe de ouvir:


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